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Tradição junina no Ceará: entenda por que Santo Antônio é procurado por quem deseja se casar

Santo era conhecido por aconselhar homens e defender mulheres. Além de casamenteiro, santo com data celebrada por cristãos no dia 13 de junho é lembrado também por socorrer pessoas que buscam ajuda com finanças e alimentação.

Rayane Araújo
Por: Rayane Araújo Fonte: G1
13/06/2026 às 08h02
Tradição junina no Ceará: entenda por que Santo Antônio é procurado por quem deseja se casar

Colocar a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo ou tirar o Jesus menino do colo dele. E livrar o santo do "castigo" apenas quando ele atender o pedido. No imaginário popular, estes são alguns métodos utilizados pelas mulheres solteiras ao pedir um casamento com a ajuda do santo. A lembrança de Antônio como santo casamenteiro tem origem nas atitudes do frade em defesa das mulheres aflitas.

 

A vida do santo foi pautada pela defesa das pessoas necessitadas. Assim como dava de comer aos famintos, ele acolhia e defendia as mulheres agredidas, perseguidas e humilhadas, por vezes pelos seus companheiros, conforme explica o frei Antônio Rodrigues, frade da Província Franciscana do Brasil e morador do Convento de Santo Antônio, na cidade de Canindé.

 

“Ele recebeu uma educação muito forte sobre a família, era um homem de falar sobre o verdadeiro sentido da família como instrumento de Deus. Ele aconselhava que os homens amassem as mulheres, que as tratassem com o carinho que elas mereciam”, detalha o frade.

 

Depois da canonização, relatos de milagres atribuídos ao santo começaram a ser difundidos entre os católicos nas cidades europeias, alimentando o hábito de associar Santo Antônio à intercessão pelo matrimônio. Um deles foi de uma jovem muito bonita que havia perdido a esperança de se casar.

 

Ela pedia um marido e sempre trazia flores para a imagem do santo que mantinha no oratório particular. Impaciente pela demora em alcançar a graça, ela jogou a imagem pela janela. Um homem foi atingido pela imagem do lado de fora da casa. Eles teriam se apaixonado no momento em que o jovem procurou a moça para devolver a imagem.

 

Noite das solteironas

No interior do Ceará, a cidade de Barbalha acolhe tradições que mobilizam multidões em busca dos milagres do casamenteiro. É durante os festejos do padroeiro, no mês de junho, que as ruas são tomadas pelos fiéis que carregam o tronco de árvore que serve como mastro da bandeira de Santo Antônio. O período ficou conhecido como a Festa do Pau da Bandeira.

 

"Como barbalhense, eu fui criada na devoção a Santo Antônio. Desde os primórdios, já havia a tradição: a moça que acompanhasse o cortejo do mastro da bandeira arranjava matrimônio", explica a advogada Socorro Luna.

 

Desde 2002, ela organiza a Noite das Solteironas, com rituais acrescentados à festa para reunir pessoas interessadas nas simpatias casamenteiras.

 

 

A noite é de quermesse ao lado da igreja matriz, onde Socorro entrega o "kit milagre". Ele contém a casca do pau da bandeira e instruções para o preparo do chá casamenteiro, a medalha de Santo Antônio, a oração para arranjar casamento e a fita com a mensagem "Santo Antônio, tende piedade de nós, as solteironas".

 

O que começou para preservar a cultura interiorana das quermesses tomou maiores proporções. "Muita gente até ria, mas algumas pessoas passaram a acreditar", lembra Socorro. Atualmente, são muitos os casais que agradecem a Santo Antônio a graça alcançada após as simpatias.

 

Na última década, os organizadores da festa têm realizado cerimônias para oficializar a união de 15 casais selecionados a cada ano. Socorro complementa que as simpatias não são apenas para as mulheres. A intercessão também vale para homens em busca de casamento, incluindo as relações homoafetivas. "Santo Antônio não tem preconceito, ele quer ver o ser humano feliz", garante.

 

Quando o assunto é intercessão para conseguir casamento, há também uma dica de quem conhece bem a história dos santos. “Meu pai dizia que as pessoas pedem muito o casamento a Santo Antônio. Ele arranja casamento, mas não sabemos se o casamento vai ser tão bom. Se você quiser um marido bom mesmo, tem que pedir a São José”, explica Antônio Maia, de 59 anos, morador de Sobral e integrante de uma família de forte tradição católica.

 

Um dos motivos seria a vivência de São José como esposo, tendo sido um homem justo e bondoso para Maria e o menino Jesus. Santo Antônio, por outro lado, nunca foi casado.

 

Além de receber orações dos solteiros, Antônio e José trazem outra semelhança: a presença do lírio na iconografia. Nas imagens dos dois santos, a flor faz alusão à pureza e ao testemunho de uma vida de obediência a Deus.

 

Celebrações no Ceará 

Antônio morreu no dia 13 de junho de 1231 e foi canonizado pela Igreja Católica menos de um ano depois. Atualmente, os festejos de Santo Antônio acontecem na forma de trezena, com dias seguidos de orações e ritos entre os dias 1º e 13 de junho.

 

A devoção popular no Ceará se explica historicamente pela introdução do catolicismo pelos colonizadores portugueses.

 

Como era difícil interiorizar os ritos clericais em um grande território, as festas dos santos realizadas pelos senhores das fazendas deram força ao catolicismo popular no campo e na cidade, conforme contextualiza George Paulino, coordenador do Laboratório de Antropologia e Imagem da Universidade Federal do Ceará (LAI/UFC).

 

Na sociedade brasileira, o catolicismo popular assumiu formas diversas com influências de outros povos, como indígenas e afrodescendentes. O povo e as comunidades assumem um papel ativo em suas relações com o sagrado, criando rituais que vão além daqueles ensinados pela Igreja Católica.

 

Deixar o santo de cabeça para baixo ou amarrá-lo sob o sol na esperança de influenciar resultados são práticas rituais que envolvem atos mágicos, exemplifica o pesquisador.

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